Viagem realizada em abril de 2017
Orongo, a aldeia cerimonial
Localizada na borda do vulcão Rano Kau, Orongo é outro espetacular sítio arqueológico da Ilha de Páscoa. Ali é possível compreender melhor uma importante fase da história Rapa Nui.
A aldeia de Orongo era habitada somente durante a competição do Tangata Manu (Homem-pássaro).
Os pássaros tinham grande valor para os antigos habitantes, já que na isolada e remota ilha não existiam grandes mamíferos ou répteis. As aves eram os únicos seres vivos que viviam próximos aos humanos, fornecendo proteína através da carne e ovos.
Tal relevância levou ao surgimento de um culto religioso relacionado aos pássaros. Acreditava-se que estes, especialmente as aves marinhas, tinham uma relação mística com os deuses, unindo a terra, mar e o céu.

O culto girava em torno do pássaro manutara, conhecido como o “pássaro da sorte”. Este foi identificado como a gaivota Sterna fuscata que migrava para a ilha na primavera para pôr seus ovos. Atualmente, não é possível encontrá-la por lá, pois já não fazem mais ninhos no local há anos.
Estudos indicam que em determinado momento da história Rapa Nui, o culto aos ancestrais divinizados, representados pelos moai, foi abandonado devido à perda do prestígio da antiga ordem política e religiosa.
Gradualmente, as antigas crenças foram substituídas por novos rituais relacionados à fertilidade e vinculados a uma única divindade, o deus criador Make Make. Segundo a tradição, este deus teria levado as aves marinhas da lendária ilha Hiva para Rapa Nui.
Inicialmente, a competição do homem-pássaro se tratava de uma celebração religiosa em homenagem ao deus Make-Make. Com o declínio do culto aos moai e, consequentemente, da influência do rei, teve início o estabelecimento de um novo sistema de liderança. Assim, cada clã passou a ser dirigido por chefes guerreiros e a cerimônia do homem-pássaro passou a ter um perfil mais político.
Então, cada novo líder passou a ser escolhido através da competição anual do homem-pássaro, onde o chefe de cada clã designava seu melhor guerreiro para participar. A prova era duríssima e o vencedor, consagrado como homem-pássaro ou tangata manu, era convertido em representante do deus Make Make na Terra durante um ano, período no qual sua tribo recebia privilégios especiais.
A competição do homem-pássaro
Com a proximidade da competição, cada clã escolhia um jovem guerreiro para representá-los. Os participantes da prova tinham que descer pelo penhasco do vulcão quase vertical, de 300m, e nadar até Moto Nui, a maior ilha das três localizadas em frente ao Rano Kau, com ajuda de um flutuador feito de fibras da planta aquática totora. O percurso pelo mar tinha mais de um quilômetro, feito em águas agitadas por fortes correntes e repleta de tubarões!
Chegando na ilha, os bravos participantes ainda tinham que esperar vários dias ou até semanas pela vinda dos pássaros manutara, que ali paravam para botar seus ovos. O objetivo era pegar o primeiro ovo e levá-lo intacto a Orongo. Para isso, o guerreiro amarrava o sagrado ovo em sua testa, se lançava ao mar novamente, nadando de volta à aldeia. Em algumas competições quase todos os participantes morriam durante a prova.

A competição do homem-pássaro, embora representasse uma boa solução política, fracassou com o passar dos anos, pois os clãs vencedores não queriam perder seus privilégios. Eles não permitiam que as tribos rivais participassem da competição, mantendo-se no poder durante muitos anos.
Isso desencadeou muitos conflitos entre os clãs e o culto ao tangata manu foi se degenerando até a chegada dos primeiros missionários que, por fim, determinaram sua proibição, considerando a prática contrária à fé cristã.
Algumas das provas do Festival Tapati Rapa Nui, um importante evento cultural ocorrido na ilha durante a primeira quinzena de fevereiro, são inspiradas na competição do homem-pássaro.
As casas da aldeia cerimonial
Na época da competição do homem-pássaro, os chefes das tribos, seus guerreiros e assistentes se instalavam em casas especialmente construídas na aldeia.
As primeiras casas de pedra em Orongo parecem ter sido construídas por volta de 1400 d.C. Foram construídas 54 casas, alinhadas na borda da cratera, de frente para o mar.






No local há uma casa parcialmente desconstruída em que é possível observar como eram levantadas:

Em muitas rochas existentes na área da aldeia podem ser vistos diversos petróglifos, sendo o local de maior concentração de arte rupestre de toda a ilha.



O trajeto por Orongo não é muito demorado, nós fizemos o percurso duas vezes para não perder nenhum detalhe e tirar muitas fotos, já que só é possível visitar o local uma única vez, assim como em Rano Raraku. Não esqueça de levar o ticket do parque.
Na entrada de Orongo há um setor com diversas informações sobre a história da vila cerimonial, vale a pena conferir. Ali ganhamos um folheto que explicava sobre cada local percorrido na vila. Em Orongo venta bastante, então é aconselhável levar um casaco.

Ahu Akivi e os 7 exploradores
Ao contrário das outras plataformas, localizadas próximo à costa, Ahu Akivi encontra-se mais no interior da Ilha de Páscoa. As sete estátuas ali presentes são as únicas posicionadas de frente para o mar, todas as outras presentes na ilha estão de costas para o oceano, originando muitos mistérios e algumas teorias sobre o motivo. Porém, alguns estudiosos indicam que em frente aos moai havia uma vila. Então, diz-se que eles foram ali colocados para olhar e proteger os habitantes da aldeia através de seu mana.
Ahu Akivi, assim como outras plataformas da ilha, foi construído seguindo uma precisa orientação astronômica para que os habitantes pudessem acompanhar a mudança das estações e saber a melhor época para realizar plantios.

Em Akivi, o eixo da plataforma foi orientado de norte a sul. Durante o equinócio da primavera austral (21 de setembro), os rostos dos moai miram exatamente no ponto onde o sol se põe. Durante o equinócio de outono (21 de março), suas costas recebem os raios do amanhecer.
Os moai do Ahu Akivi são conhecidos como os sete exploradores. Segundo a lenda, as estátuas se referem aos sete jovens que foram enviados para explorar e estudar as condições da ilha, antes da chegada do rei Hotu Matu’a.
As estátuas de pedra deste sítio arqueológico foram as primeiras a ser levantadas e restauradas após o moai erguido em Anakena.
Nós fomos duas vezes ao Ahu Akivi, na primeira vez estava meio nublado e na outra, um sol escaldante. Até compartilhamos uma sombra com um amigo que estava por lá… 🙂

Ahu Akivi pode ser visitado quantas vezes você desejar, deve-se somente mostrar o ticket do parque na entrada. Há uma pequena venda de sucos, frutas ali perto, banheiro e estacionamento para carros e bikes (para carros não era pago, mas para bikes uma placa marcava 500 pesos chilenos). Algumas pessoas deixam o carro em Ahu Akivi para fazer o trekking ao Monte Terevaka.
Tinha lido em alguns lugares que era possível ver o pôr do sol em Ahu Akivi, já que o mesmo ocorre bem em frente aos moai, proporcionando lindas imagens. Nós seguimos para lá em um final de tarde, porém a “porteira” estava fechada e não havia ninguém. Dava para entrar, já que a cancela de madeira não tinha cadeado, mas decidimos não arriscar. Vimos o sol se pondo do lado de fora mesmo. Pelo que reparei, há alguns anos não havia portaria nos sítios arqueológicos, exceto em Orongo e Rano Raraku. A entrada era livre em qualquer horário, mas agora está mais controlado.


Ahu Tahai
O conjunto arqueológico de Tahai é um dos assentamentos mais antigos da ilha. No local é possível observar três plataformas cerimoniais, denominadas Vai Uri, Tahai e Ko Te Riku, além de vestígios de uma antiga aldeia.
Tahai é um bom exemplo de como os habitantes modificaram o ambiente natural para adaptá-lo às suas necessidades. Para alcançar o resultado final que agora é observado, eles tiveram que nivelar e preencher o tereno com milhares de metros cúbicos de terra e pedra.

O Ahu Ko Te Riku é a plataforma localizada mais ao norte em que é possível observar o moai com um pukao na cabeça. Esta estátua tem 5,1 metros de altura e é a única da ilha que possui olhos.
Acredita-se que depois que um moai era levantado em seu ahu, suas órbitas eram talhadas e seus olhos, feitos com coral branco, eram colocados durante uma cerimônia de “abertura dos olhos”. A partir deste momento se considerava que a estátua ganhava vida, podendo projetar seu mana (poder espiritual) para proteger sua tribo.

Porém, até pouco tempo não se sabia que os moai tinham olhos. Nos testemunhos dos primeiros europeus que visitaram a ilha não há nenhuma menção sobre olhos nas estátuas. Assim, é provável que os mesmos se perderam e/ou foram destruídos durante as guerras tribais, as quais levaram à derrubada de todos os moai da Ilha de Páscoa.
Felizmente, em 1978, durante escavações realizadas na praia Anakena um olho original foi encontrado. A peça hoje se encontra no Museo Sebastian Englert, localizado na ilha.
Há relatos de que os olhos presentes no moai Ko Te Riku foram colocados a pedido de uma revista francesa que fazia uma reportagem na ilha, pois queriam ter uma ideia de como era um moai nos tempos antigos. Parece que a população gostou bastante do resultado e resolveram mantê-lo com os olhos.

No Ahu Vai Uri pode-se observar cinco estátuas, porém apenas duas estão inteiras. Há um pedestal vazio na plataforma. Ao que tudo indica, o moai que ali permanecia agora encontra-se a alguns metros de seu ahu, caído de barriga para baixo. Provavelmente não foi possível restaurá-lo.

O Ahu Tahai também sustenta uma única estátua, já bem erodida. Esta é a plataforma mais antiga do complexo, construída em torno de 700 d.C.


Uma rampa pavimentada com rochas encontra-se entre o Ahu Vai Uri e o Ahu Tahai. Acredita-se que foi utilizada para transportar os barcos para a costa.


Neste sítio arqueológico também encontra-se o túmulo de William Mulloy e sua esposa. O antropólogo norte-americano chegou à ilha juntamente com a expedição de Thor Heyerdahl, em 1955.
Mulloy encabeçou projetos de restauração de importantes monumentos da Ilha de Páscoa, como Ahu Akivi, Tahai, aldeia de Orongo e outros sítios arqueológicos, tornando-se o investigador mais importante da cultura Rapa Nui.
Faleceu em 1978 nos EUA e pouco depois suas cinzas foram enterradas em sua querida Rapa Nui. Ali ele descansa junto a sua esposa, que o acompanhou em suas longas estadias na ilha.

Dentre os vestígios arqueológicos encontrados no complexo de Tahai estão as hare paenga, as casas-bote, as quais eram assim chamadas devido ao seu formato que lembra um bote invertido. Este tipo de moradia consistia de pedras laterais com furos onde eram inseridas longas estacas de madeira que sustentavam um telhado de gramíneas. Tinha uma abertura única e estreita. Eram utilizadas somente para dormir.


Outras estruturas vistas neste local são galinheiros, chamados hare moa. As aves eram ali guardadas durante a noite para evitar que escapassem ou que fossem roubadas. As construções de pedra lembram as casas de Orongo.

Os melhores momentos do dia para fotografar os moai do complexo de Tahai são pela manhã, quando o sol ilumina as estátuas de frente, e no fim de tarde para apreciar o sol se pondo no mar. O céu colorido forma um belíssimo plano de fundo para as silhuetas dos gigantes de pedra.
O pôr do sol no Tahai é quase um evento na ilha. Vai chegando a hora e muitas pessoas começam a se encaminhar para lá com toalhas para estender no chão.

O complexo de Tahai está localizado próximo ao centro (Hanga Roa), sendo um dos sítios arqueológicos de mais fácil acesso.
Depois que o sol se vai, a fome chega. Em uma das noites fomos jantar numa lanchonete localizada na Av. Atamu Tekena. Pedimos hambúrgueres, eram enormes. O meu tinha dois ovos fritos no topo!

Outros sítios arqueológicos
Na Ilha de Páscoa ainda há muitos outros locais onde é possível observar vestígios da antiga cultura Rapa Nui. Muitos deles estão no caminho dos principais sítios.
Ahu Vinapu, a plataforma “inca” de Rapa Nui
Nós visitamos o local em um dos dias em que fomos ao vulcão Rano Kau, já que ficam bem próximos. Vinapu está localizada à beira da costa sul da ilha, onde termina a pista do aeroporto.

Da mesma forma que ocorreu no restante da ilha, os moai ali existentes foram derrubados durante as guerras entre os clãs. A plataforma, como muitas outras da ilha, está relacionada à posição das estrelas. Esta de Vinapu está direcionada ao leste do solstício de inverno.

Mas o que mais intriga os visitantes neste local é o ahu (plataforma). As técnicas de construção utilizadas em Vinapu não são observadas em nenhuma outra parte da Polinésia.
Pesados blocos de pedra foram encaixados com grande precisão. Esta construção se assemelha muito às estruturas encontradas na fortaleza inca Sacsayhuamán e em Machu Picchu. Essa incrível semelhança levou a muitas teorias sobre as origens da população Rapa Nui, relacionando-a à cultura inca da América do Sul.





No sítio arqueológico de Vinapu também podemos observar uma diferente estrutura, semelhante à uma coluna. Estudiosos indicam que ela representa um moai do gênero feminino.
São poucos os moai femininos encontrados na ilha. Além deste de Vinapu, há a estátua descoberta na praia Anakena, a qual pode ser vista agora no Museo Sebastian Englert, localizado próximo ao Ahu Tahai.


Uma opção de roteiro é visitar os três pontos do sul da ilha numa mesma viagem: Vinapu, Rano Kau e Orongo.
Te Pito Kura, o umbigo do mundo
Este complexo arqueológico está localizado a cerca de 2 km à sudeste da praia Ovahe. No local encontra-se um único moai (derrubado durante as guerras tribais), chamado Paro. É a maior estátua transportada desde a cratera do vulcão Rano Raraku e erguida em um ahu (plataforma cerimonial).
Suas orelhas medem 2 metros, tem altura de 10 metros e estima-se que seu peso ultrapasse 80 toneladas!

Segundo à tradição, este gigantesco moai foi encomendado por uma viúva, em memória de seu falecido marido. Acredita-se que a estátua tenha sido uma das últimas a ser derrubada, pouco depois de 1838, uma vez que depois desta data não há registros de algum moai em pé feito por navegantes.
Nós desejávamos visitar esse local, pois ali também encontra-se a famosa rocha magnética Te Pito Kura. A expressão “Te Pito Kura” significa “umbigo de luz” e há aqueles que relacionam o nome do lugar com as qualidades especiais desta rocha e com um dos nomes que a Ilha de Páscoa é conhecida, Te Pito O Te Henua, que significa “umbigo do mundo”.

Segundo a lenda, a rocha foi levada à ilha pelo rei Hotu Matu’a, fundador de Rapa Nui, desde Hiva, sua terra natal. Diz-se que essa rocha concentra uma energia magnética e sobrenatural.
Devido à sua alta concentração de ferro, a rocha se aquece mais que as demais, além de deixar as bússolas “doidas”, já que as mesmas perdem o norte. Há algum tempo era possível colocar as mãos sobre a rocha para captar sua energia (muitos relataram senti-la). Infelizmente, parece que devido a certos atos impróprios realizados por alguns turistas, decidiram cercá-la com pedras, impossibilitando-nos chegar mais próximo. 🙁

Papa Vaka e os petróglifos do mar
O conjunto arqueológico de Papa Vaka está localizado na parte norte da ilha entre o Ahu Te Pito Kura e Pu o Hiro. Neste local é possível observar um grande número de inscrições em longas placas rochosas.
Os petróglifos estão relacionados com o imenso oceano que circunda a ilha. Além de criaturas marinhas diversas, vemos canoas e anzóis, ferramentas utilizadas pelo povo Rapa Nui.
Infelizmente, muitas das artes rupestres já estão meio apagadas pelo tempo, mas algumas ainda estão bem visíveis. Para auxiliar a observação há plataformas em que se pode subir para enxergar mais do alto. As placas indicam os petróglifos existentes em cada rocha.


Papa significa “pedra” no idioma rapanui e vaka, “canoa”. O nome deste sítio arqueológico faz referência ao maior petróglifo encontrado na ilha. Não se sabe se representa uma canoa especial ou se queriam recordar a grande embarcação em que os ancestrais chegaram à ilha.

Pu o Hiro, o trompete de Hiro
Esta é uma parada rapidinha, está localizada após Papa Vaka. Pu o Hiro é uma rocha de cerca de 1,25 metros de altura, cujo nome significa “trompete de Hiro”, ancestral deus da chuva.


O trompete tem um orifício principal, por onde era soprado, produzindo um som profundo semelhante ao do instrumento musical. Dizem não ser tarefa fácil emitir o som.
Seu uso ainda não está elucidado. Acredita-se que era considerado como um talismã para a pesca, cujo som atraía os peixes para a costa. Na superfície da rocha observam-se vários petróglifos que se assemelham a vulvas, chamadas “komari”, símbolo da fertilidade. Assim, é possível que o Pu o Hiro também fosse utilizado em rituais relacionados à tal.
Hiro, o deus da chuva, também era chamado em períodos de seca através do trompete.


Hanga Kio’e
Neste local há duas plataformas restauradas, um moai quase completo, faltando o pukao e um outro com somente parte do dorso, o qual foi resgatado na baía em que se encontra o sítio arqueológico.

Em um fim de tarde fomos curtir o pôr do sol ali. O local não é muito visitado pelos turistas, depois de nós chegou somente mais um casal.

Hanga Kio’e está localizada na costa oeste da ilha, cerca de 7 minutos de carro do Ahu Tahai. Mais acima, cerca de 19 minutos, se encontra a caverna Ana Kakenga.

Falando em caverna, mostrarei no próximo post algumas que visitamos!